A análise do processo histórico que desembocou na implantação do Estado Novo é o tema central do livro de Levine. Para explicar o êxito da ação de Vargas, o autor estuda a cultura e a sociedade brasileira dos primeiros anos da década de trinta, descreve os dois grandes movimentos políticos do período—a Ação Integralista e a Aliança Nacional Libertadora—e aponía os traços distintivos principais do Estado Novo.

O livro é importante por vários motivos. Pelas referências à qualidade da vida urbana do Rio de Janeiro no período; pela revelação da importância ideológica de um segmento intelectual conservador e xenófobo; pela tentativa séria de análise da AIB e da ANL. A descrição feita por Levine do contexto político regional do Rio Grande de Norte e a fusão deste contexto com a insurreição de 1935 são particularmente interessantes.

Mas, os “anos críticos” de Vargas não parecem tão críticos, segundo a perspectiva do autor. Sustentado pela cúpola das Forças Armadas e usando sua excepcional habilidade, o presidente se impõe às facções de esquerda e de dñeita, assim como ao desorientado grupo de liberais. Afinal, o Estado Novo parece resultar de um quase consenso geral: “se nao foi saudado, foi ao menos tolerado virtualmente por todos os elementos da sociedade brasileña”. Na raíz deste ponto de vista, está a concepção do caráter desarticulado desta sociedade. Movimentos políticos de objectivos diversos como a AIB e a ANL, mas que procuravam basear-se na mobilização popular, tinham escassas possibilidades de êxito em um país de reduzida participação política. A modemização conservadora, vinda do alto, parece dada historicamente como o caminho inevitável.

Não quero negar o caráter desarticulado da sociedade brasileira, que se revela em tantos traços, desde a incapacidade de organização política dos setores dominantes fora da sombra protetora do Estado, à incipiente organização das camadas populares. As dificuldades de atuação neste meio social de um movimento como a ANL são claras. Basta comparar a trajetória da ANL com o maior êxito relativo da Frente Popular chilena, que levou ao poder Aguirre Cerda em 1938. Porém, aceitas as caraterísticas pouco favoráveis do sistema social e político, seria necessário analisar quais as possibilidades de formação de um movimento autônomo das classes populares, sem descartá-las de antemão. Não descartá-las de antemão significa preocupar-se com os sintomas de inconformismo revelados pelas “camadas de baixo” e com a política dos grupos que pretenderam dar forma ao inconformismo. Mereceriam maior atenção o surto reivindicatorio da classe operária, imediatamente posterior à Revolução de 1930, e a grande vaga grevista de 1934, a que se seguiu a formação da Aliança Nacional Libertadora.

Do ponto de vista dos grupos que se propuseram a organizar as camadas populares, caberia estudar a natureza do Partido Comunista e a associação deste partido com um setor do tenentismo, em fins de 1934. A associação tem bastante interesse quando se procura analisar as razões da desastrosa tentativa insurrecional de novembre de 1935. A opção pelo assalto ao aparelho de Estado, com a implícita rejeição de um traballio de paciente organização horizontal das classes populares, estaria relacionada essencialmente com a influência das concepções tenentistas no interior do P.C.? Ou, mais do que isto, esta política deitaria raízes em uma concepção elitista da sociedade brasileira que invadiria todas as correntes, inclusive as de esquerda, acentuando a desarticulação da sociedade?

Questões como estas servem para indicar a relevância dos problemas suscitados pelo livre de Levine e são uma indicação a mais de sua importância.